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O fornecedor recebeu menos que a invoice: OUR, BEN e SHA

Três letras na ordem de pagamento decidem se o seu fornecedor recebe o valor da invoice ou recebe menos. Quase ninguém escolhe qual delas vai, e é por isso que a diferença aparece no próximo pedido.

Fundo turquesa com três blocos brancos ligados por setas, exibindo cifrão, porcentagem e seta para baixo.

Você pagou a invoice inteira. O fornecedor confirma que recebeu menos, cobra a diferença no próximo pedido, e ninguém no caminho manda um aviso explicando para onde foi o resto.

A diferença ficou com bancos que você não contratou. E quem decidiu que a conta seria sua, ou dele, foi a sua própria ordem de pagamento, num campo de três letras que quase ninguém confere.

O campo que decide

Quando escrevemos sobre onde o custo de pagar um fornecedor no exterior se esconde, ficou uma ponta solta: existe um campo na ordem de pagamento que define quem arca com as tarifas do trajeto. É dele que este texto trata.

Esse campo tem nome e número. No formato MT, que é como a maior parte das mesas ainda fala, ele é o 71A, details of charges, e aceita três valores: OUR, SHA e BEN. Não é detalhe de bastidor. É o que decide se o seu fornecedor recebe o valor da invoice ou recebe menos.

O que cada uma faz

InstruçãoQuem paga as tarifasO que chega ao fornecedor
OURO pagador cobre todas as tarifas da cadeiaO valor cheio da invoice, salvo anomalia
SHAO pagador cobre a tarifa do próprio banco. As tarifas dos correspondentes e do banco do beneficiário saem do valor em trânsitoMenos que a invoice
BENTodas as tarifas da cadeia saem do valor enviadoMenos que a invoice, com dedução desde a origem

Compartilhado não quer dizer meio a meio

É aqui que a tradução atrapalha, e a sua conciliação erra junto.

SHA vira "compartilhado" em português, e a leitura natural é que o custo é rachado ao meio. Não é. O texto da norma é direto: em SHA, todas as tarifas que não sejam as do banco que atende o pagador ficam por conta do beneficiário. Você paga a tarifa do seu banco. Todo o resto é deduzido do principal enquanto ele viaja.

Não existe metade. Existe a sua tarifa, paga na origem, e todo o resto, que sai do dinheiro do fornecedor.

Como provar para onde foi o dinheiro

A ordem de pagamento tem um campo onde as deduções do caminho aparecem: o 71F, sender's charges. Cada banco que desconta a própria tarifa acrescenta uma linha, na ordem em que os descontos aconteceram.

Vale saber onde esse rastro falha. Em BEN, pelo menos uma linha de 71F é obrigatória. Em SHA, ela é opcional. Em OUR não é permitida, porque não há dedução a registrar. Ou seja: justamente em SHA, que é onde a maior parte das remessas acaba saindo, o banco pode descontar e não registrar nada.

A conta também não é a que parece à primeira vista. O valor do campo 32A já vem líquido: é o valor instruído no campo 33B, menos as linhas de 71F. Comparar 33B com 32A é o que mostra quanto ficou pelo caminho. Subtrair o 71F outra vez do 32A conta a mesma tarifa duas vezes, e é erro comum em conciliação.

Uma limitação a mais: o 71F traz moeda e valor, não o nome de quem descontou. Quem é quem se deduz pela ordem das linhas, sendo a última a tarifa do próprio banco remetente.

Ainda assim é rastro. Peça ao seu banco ou à sua instituição de câmbio a cópia da mensagem da ordem. Com o 33B e o 32A lado a lado, a conversa com o fornecedor deixa de ser "recebi menos" contra "paguei tudo" e vira uma diferença com valor definido.

Os nomes desses campos estão mudando

O que está descrito acima é o formato MT. Para pagamentos transfronteiriços entre bancos, o período de convivência entre o MT e o padrão ISO 20022 terminou em novembro de 2025.

A escolha continua existindo, com outros nomes. O campo passou a ser o charge bearer, e as opções são DEBT, com o pagador cobrindo tudo, CRED, com o beneficiário cobrindo tudo, e SHAR, com a mesma lógica do antigo SHA. O registro das deduções virou charges information, e agora traz o identificador do banco que descontou, não só o valor. Para o seu lado da mesa, isso é melhora: o rastro que antes dependia da ordem das linhas passou a vir com nome.

A pergunta operacional não muda. Qual instrução sai por padrão nas suas remessas, e quem absorve a tarifa de quem. Se o seu time ainda fala em OUR, SHA e BEN, é o vocabulário que atravessou a mudança.

Então é só mandar tudo em OUR?

Em OUR o fornecedor recebe o valor cheio, e o financeiro concilia invoice contra pagamento sem diferença. Em troca, você assume tarifas de bancos que não escolheu.

Quanto isso custa, e se entra fechado na cotação ou como cobrança posterior, muda de instituição para instituição. É pergunta para fazer antes de trocar a instrução padrão de todas as suas remessas, não depois de trocar.

E nem sempre a escolha existe. Em certas rotas e moedas a instrução é fixada pelo esquema de pagamento local, e pagamento em euro dentro da zona do euro é o caso mais comum: sai compartilhado, e não há o que instruir. Confirme rota a rota antes de padronizar.

Para pedido pequeno e recorrente, a dedução de correspondente pode ser menor que o custo de mandar tudo em OUR. Para ticket alto, o que pesa é a conciliação: fornecedor que recebe menos abre disputa, e disputa atrasa produção. A escolha muda com o perfil da operação, e por isso ela merece ser uma decisão, e não um padrão herdado de quem configurou a conta.

Onde isso encosta no contrato

A instrução é uma decisão comercial, não só bancária. Se a PO ou o contrato dizem que o fornecedor recebe o valor da invoice líquido, quem manda em SHA está furando o combinado sem perceber. E vai pagar a diferença de um jeito ou de outro, embutida no próximo pedido.

Escreva a instrução no contrato. Uma linha resolve: qual das três, e quem cobre eventual dedução de correspondente no caminho.

O que fazer com as suas últimas ordens

  • Levante as últimas ordens de pagamento ao exterior e veja qual instrução saiu em cada uma. Muita gente descobre que vinha mandando compartilhado sem nunca ter escolhido.
  • Peça a mensagem completa e compare o valor instruído com o valor liquidado. A diferença é o que os bancos do caminho retiveram.
  • Compare essa diferença com o que o fornecedor cobrou de volta. Os dois números deveriam bater.
  • Decida a instrução por perfil de fornecedor e por rota, registre no contrato e avise quem opera o pagamento no dia a dia.

Tributos e enquadramento ficam fora desta conta de propósito, e não são pequenos. O IOF e o spread da sua instituição não passam por esse campo e costumam pesar mais do que as tarifas do caminho. O que incide depende da operação e do produto, e essa conversa é com a sua contabilidade e o seu despachante.

O que este campo resolve é outra coisa, e é conferível. Três letras na ordem, duas linhas na mensagem de retorno, e a diferença que o fornecedor reclama para de ser um mistério.


Este texto tem um enfoque puramente educacional e não configura nenhuma indicação de investimentos ou relacionado. Dispor dinheiro ou suas finanças em qualquer forma de investimento configura um risco real e deve ser tratado com extrema seriedade.

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