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Modalidades de pagamento na importação: onde fica o risco

As quatro modalidades não reduzem o risco da importação. Elas escolhem quem fica com ele, e o preço dessa escolha raramente aparece como tarifa: aparece no preço unitário do fornecedor, no limite de crédito comprometido e nos dias de estoque parado.

Painel turquesa com quatro azulejos brancos em fila, trazendo os símbolos de cifrão, parágrafo, visto e duas setas opostas

A proforma do fornecedor chega com uma linha no rodapé: 30% T/T in advance, 70% against copy of B/L. Alguém do comercial responde confirmando, porque o preço unitário estava bom e o prazo de produção fechava com a parada de manutenção de novembro.

Essa linha decidiu quem carrega o risco da compra inteira. Ela foi decidida por quem respondeu o e-mail mais rápido.

Quatro modalidades, uma pergunta só

O material em português costuma apresentar o assunto como um cardápio de produtos bancários. O Siscomex, no material Aprendendo a Exportar, lista quatro: pagamento antecipado, remessa sem saque, cobrança documentária e carta de crédito.

As quatro respondem à mesma pergunta. Quem entrega primeiro. Tarifa, documento, prazo e banco envolvido são consequência dessa escolha, não critérios para fazê-la.

Antes da tabela, um aviso de vocabulário, porque duas coisas diferentes se chamam modalidade no Brasil. A modalidade comercial é esta, e você negocia com o fornecedor. A modalidade do câmbio, antecipado, à vista ou a prazo, é a classificação da operação cambial, e está no passo a passo do fechamento de câmbio. Uma decorre da outra, mas são contratos separados.

ModalidadeQuem entrega primeiroQuem fica mais expostoO que o banco faz
Pagamento antecipadoVocê, o dinheiroImportadorExecuta a remessa
Remessa sem saqueFornecedor, carga e documentosExportadorExecuta a remessa, no vencimento
Cobrança documentáriaFornecedor, a carga; os documentos ficam com o bancoOs dois, em parcelas menoresEntrega os documentos contra pagamento ou contra aceite
Carta de créditoFornecedor, contra compromisso do banco emitenteOs dois, exposição menorAssume o compromisso de pagar contra documentos conformes

Pagamento antecipado

O dinheiro sai antes do embarque, e é o que libera a linha de produção do fornecedor. O Siscomex é direto sobre o efeito: o maior risco fica com o importador, que paga antes de comprovar o embarque da mercadoria.

Quem compra da Ásia pela primeira vez costuma receber essa como única oferta, e não por má-fé. O fornecedor também não conhece você.

Existe uma janela regulatória que quase ninguém checa antes de assinar contrato longo. O artigo 47 da Resolução BCB 277/2022 prevê que a antecipação do pagamento de importação pode ocorrer em até trezentos e sessenta dias anteriores à data prevista para o embarque ou para a nacionalização. Encomenda de máquina com ciclo de fabricação longo encosta nessa janela. Leve a data prevista de embarque para a instituição antes de assinar, e não depois.

Remessa sem saque

É o espelho do antecipado. O fornecedor embarca e manda os documentos direto para você, que nacionaliza a carga e paga depois, em prazos que o Siscomex situa na faixa de trinta a noventa dias.

Do seu lado, é a mais barata e a mais flexível das quatro. Nenhum banco no meio cobrando por evento, nenhum documento parado esperando conferência. Do lado do fornecedor é a pior. O Siscomex registra o motivo: em caso de inadimplência não existe título de crédito que garanta a possibilidade de protesto. Ele embarcou a mercadoria e ficou com uma fatura.

Por isso remessa sem saque não se pede, se conquista, normalmente depois de muitos pedidos sem incidente. Quando um fornecedor novo oferece sessenta dias na primeira compra, sem que você tenha pedido, isso não é vitória comercial. É informação sobre o fornecedor, e o motivo costuma estar no balanço dele.

Um detalhe operacional morde aqui. Como os documentos e a instrução de pagamento viajam por e-mail, sem banco nenhum no caminho conferindo, essa é a modalidade mais exposta à troca dos dados bancários do fornecedor.

Cobrança documentária

Aqui entram bancos, e mora o mal-entendido mais caro das quatro.

O fornecedor embarca e entrega os documentos ao banco dele, que os remete ao banco no Brasil com uma instrução de cobrança. Sem esses documentos você não desembaraça a carga. Essa é toda a alavanca.

As regras são as URC 522 da Câmara de Comércio Internacional, em vigor desde 1º de janeiro de 1996. O que elas dizem que o banco faz é mais estreito do que a palavra banco sugere. O artigo 12 determina que os bancos devem verificar que os documentos recebidos aparentam ser os listados na instrução de cobrança. É conferência de lista contra lista. O artigo 13 afasta a responsabilidade dos bancos, entre outras coisas, pela existência das mercadorias representadas por qualquer documento. E o artigo 10 estabelece que os bancos não têm obrigação de tomar qualquer providência em relação à mercadoria a que a cobrança se refere.

Na prática: na cobrança o banco é carteiro registrado, não garantidor. Ele não promete pagar. Ele controla a entrega do papel.

São dois arranjos, e a distância entre eles é grande. Contra pagamento, você paga para receber os documentos, e sem pagar não desembaraça. Contra aceite, você aceita um saque com vencimento futuro, recebe os documentos e paga depois. No segundo arranjo o fornecedor ganha um título e você ganha prazo, que é exatamente o que faltava na remessa sem saque.

O risco que sobra para o fornecedor é o seu não comparecimento. Se você desistir da compra, a carga está no destino e o banco não vai retirá-la. O mesmo artigo 10 recomenda que a mercadoria não seja despachada diretamente ao endereço de um banco, nem consignada a ele, sem acordo prévio. Para você isso tem um lado prático desconfortável: desistir na cobrança custa demurrage e frete de retorno, não só relacionamento.

Carta de crédito

É a modalidade que mais aparece em material de banco e a que menos entrega o que o leitor imagina que ela entrega.

O banco emitente se compromete a pagar contra documentos conformes. Conformes aos termos do crédito, não à mercadoria. O artigo 5º das UCP 600 diz que os bancos lidam com documentos e não com as mercadorias, serviços ou desempenho a que esses documentos se refiram.

O Siscomex a descreve como a modalidade mais difundida no comércio internacional, por oferecer mais garantias aos dois lados. Isso vale na comparação com as outras três. Não vale como garantia de que a carga existe e está correta. Quem contrata carta de crédito com medo de qualidade está comprando outro produto.

É também a mais cara das quatro, e o custo não cabe na comissão de abertura: há tarifas por evento, limite de crédito comprometido enquanto a operação viver e horas de gente conferindo documento contra o texto do crédito.

O risco não diminui, ele muda de lado

Nenhuma das quatro reduz risco. Elas escolhem quem fica com ele, e essa escolha tem preço.

O preço raramente aparece como tarifa. Aparece no preço unitário que o fornecedor te dá quando aceita cobrança em vez de antecipado. Aparece no limite de crédito que a carta de crédito imobiliza no seu banco. Aparece nos dias entre o embarque e a liberação dos documentos, que são dias de estoque parado. E aparece nas tarifas dos bancos do caminho, que dependem de uma instrução que muita gente nunca leu, assunto de OUR, BEN e SHA. Algumas dessas camadas já tratamos em onde o custo de pagar fornecedor no exterior se esconde.

Existe um teste rápido para saber se o seu fornecedor precificou isso. Peça o preço em duas modalidades. Se ele devolver o mesmo número, ou ele nunca fez a conta, ou o pior caso já está embutido no preço que você paga há dois anos.

Depois da modalidade ainda existe um contrato de câmbio

Acertar a modalidade não fecha a operação financeira. Os reais ainda precisam virar moeda estrangeira numa operação de câmbio, com contrato próprio, classificação própria e calendário próprio.

O retrabalho nasce quando essas duas pontas são tratadas por pessoas diferentes. A modalidade que alguém confirmou no rodapé da proforma é o que define o pacote documental que a mesa vai pedir semanas depois. Quem fecha prazo sem olhar para isso descobre o pacote com a produção do fornecedor esperando.

Antes de responder à proforma

  • Qual modalidade está escrita no rodapé, e quem na sua empresa aprovou essa linha?
  • Se for antecipado, quanto você perde se não houver embarque, e você recuperaria esse valor na jurisdição do fornecedor?
  • Se for cobrança, é contra pagamento ou contra aceite? As duas ocupam a mesma linha do contrato e significam coisas diferentes.
  • Você já pediu ao fornecedor o preço em mais de uma modalidade?
  • A modalidade desta compra é a mesma das últimas três, ou mudou sem que o financeiro soubesse?
  • Quem confere o pacote documental antes de a mesa de câmbio conferir?

Se você compra do mesmo fornecedor há mais de um ano e continua pagando antecipado, comece pela quarta. Peça o preço em cobrança documentária contra aceite e compare com o que paga hoje. É um e-mail, e a resposta costuma mostrar quanto do seu risco já está dentro do preço unitário.


Este texto tem um enfoque puramente educacional e não configura nenhuma indicação de investimentos ou relacionado. Dispor dinheiro ou suas finanças em qualquer forma de investimento configura um risco real e deve ser tratado com extrema seriedade.

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