A planilha da importação tem uma linha para câmbio e uma célula para a taxa. O pedido é 30% na assinatura e 70% antes do embarque, e entre os dois existem semanas de produção. A célula aceita um número só.
Esse número está certo para 30% da compra.
O que já estava resolvido e o que não estava
Que o arranjo 30/70 vira dois fechamentos de câmbio, em dois dias diferentes e a duas taxas diferentes, já tratamos em onde o custo de pagar fornecedor no exterior se esconde e no passo a passo do fechamento de câmbio de importação. O diagnóstico está feito.
Este texto começa onde aqueles param. Você precisa fechar o preço de venda hoje, e a segunda perna da operação não existe ainda. Qual número vai na célula.
A data da segunda perna não é sua
Leia o rodapé da proforma com atenção ao que dispara cada pagamento. O primeiro é a sua ordem, e você escolhe o dia. O segundo costuma vir escrito como 70% against copy of B/L, ou contra aviso de embarque.
O gatilho é um documento que o fornecedor emite quando a produção termina. Não é uma data no seu calendário.
Quem orça com uma taxa só erra numa variável. Quem orça com duas taxas e uma data fixa para a segunda erra em duas, e a segunda é a que o seu fornecedor controla. Linha de produção atrasa, consolidação de contêiner espera carga, e a data que você escreveu na planilha em março vira outra em maio.
São duas operações, não um pagamento em duas vezes
É aqui que o orçamento costuma simplificar demais. Comercialmente, é uma compra com pagamento dividido. Na mesa de câmbio, são dois contratos, e eles não são iguais entre si.
| Perna | O que dispara | Onde o pagamento cai em relação à mercadoria | O que costuma sustentar |
|---|---|---|---|
| 30% na assinatura | Sua ordem, depois do aceite da proforma | Antes do embarque | Fatura proforma |
| 70% contra cópia do B/L | Um documento do fornecedor | Carga embarcada, antes ou depois da nacionalização | Fatura comercial, conhecimento de embarque e packing list |
A coluna da direita descreve a prática, não uma lista fixa. O artigo 7º da Resolução BCB 277/2022 deixa à instituição autorizada a decisão de requisitar ou dispensar informações e documentos comprobatórios, conforme a avaliação que ela faz do cliente e da operação.
O efeito prático disso no 30/70 é específico, e vale mais do que a leitura do artigo sugere: a primeira perna ter passado com a proforma e nada mais não diz nada sobre a segunda. São operações avaliadas separadamente, com documentos diferentes sustentando cada uma. Quem guardou a memória da primeira como se fosse o procedimento da compra descobre o pacote da segunda com o contêiner já fechado.
A classificação da operação também é decisão sua, não da mesa, e o pacote documental decorre dela. Quem trata a segunda perna como repetição da primeira entrega essa escolha para quem atender o telefone.
O número que falta na célula
Existem dois caminhos para a taxa da segunda perna, e os dois são decisões.
O primeiro é orçar com uma estimativa e absorver a diferença quando ela aparecer. É o caminho da maioria, e funciona quando a margem do produto comporta a variação.
O segundo é separar o momento de contratar do momento de pagar. O artigo 38 da mesma resolução distingue a liquidação pronta, que ocorre em até dois dias úteis da data da contratação, da liquidação futura, com prazo de até mil e quinhentos dias. Contratar e liquidar não são o mesmo evento, e a distância entre eles é escolhida.
Se isso cabe na sua operação depende de limite, de garantia e do seu fluxo de caixa, e a conversa é com a sua instituição e com quem responde pelo caixa da empresa. O que não convém é chegar à segunda perna sem saber que havia uma escolha ali.
Repare onde a diferença entre as duas taxas incide. Ela multiplica 70% do valor da compra, não os 100%. Numa compra de ticket alto com margem apertada, é a parte do custo que ninguém consegue apontar depois, porque ela não aparece como tarifa em lugar nenhum: aparece no resultado do pedido, três meses depois, quando já não dá para separar o que foi câmbio do que foi frete.
A antecipação tem janela, e ela é maior do que parece
Quem compra máquina com ciclo de fabricação longo assina o contrato muito antes do primeiro embarque, e a primeira perna sai logo.
O artigo 47 prevê que a antecipação do pagamento de importação pode ocorrer em até trezentos e sessenta dias anteriores à data prevista para o embarque ou para a nacionalização. O parágrafo único abre uma janela maior, de até mil e oitocentos dias, em dois casos: máquinas e equipamentos com longo ciclo de produção ou fabricação sob encomenda, desde que o prazo seja compatível com o ciclo de produção ou de comercialização do bem, e a comprovação de impossibilidade de embarque ou de nacionalização por fatores alheios à vontade do importador.
Vale checar antes de assinar, não depois. Leve a data prevista de embarque para a instituição enquanto o cronograma ainda está em negociação com o fornecedor.
O que escrever na planilha
Duas linhas, não uma. Cada perna com o valor em moeda estrangeira, a data prevista, a taxa e uma marca dizendo se aquela taxa já é contratada ou ainda é estimativa.
A marca é o item que mais falta. Sem ela, duas semanas depois ninguém na empresa sabe mais qual das duas células é um fato e qual é um palpite, e a planilha passa a ser lida como se fosse toda fato.
Vale também anotar a taxa junto com o horário exato de cada fechamento. Sem o horário não dá para comparar instituição nenhuma, porque a referência de mercado muda ao longo do dia.
E a instrução de tarifas dos bancos do caminho vale para as duas remessas. Se a sua instrução padrão manda o custo dividido, ela vai mandar duas vezes, e o seu fornecedor vai reclamar da diferença duas vezes. Esse é o assunto de OUR, BEN e SHA.
Antes de fechar o preço de venda
- Qual é a data prevista do embarque, e quem no seu time acompanha quando ela muda?
- A taxa que está na célula da segunda perna é contratada ou estimada, e quem mais na empresa sabe disso?
- Você já perguntou à sua instituição quais caminhos existem para a segunda perna, e o que cada um exige de limite ou garantia?
- O pacote documental da segunda perna está separado, ou você está contando com a dispensa que valeu na primeira?
- Quem escolhe a classificação de cada uma das duas operações?
- A sua instrução de tarifas é a mesma nas duas remessas?
Se a sua empresa compra em 30/70 há mais de um ano, comece pela segunda pergunta. Abra o orçamento do último pedido fechado e procure a célula da taxa. Compare com o que foi efetivamente contratado nas duas pernas. A diferença entre as duas é o tamanho do que você vinha chamando de variação cambial sem nunca ter medido.
Este texto tem um enfoque puramente educacional e não configura nenhuma indicação de investimentos ou relacionado. Dispor dinheiro ou suas finanças em qualquer forma de investimento configura um risco real e deve ser tratado com extrema seriedade.
